sexta-feira, 10 de abril de 2009
Azul e PretoA garota acordou com o sol entrando pela janela, um dia que muitos chamariam de perfeito: férias, sol, família. Charlotte prontamente chamaria e colocaria seu vestido azul claro, e iria ler sentada na sacada, aproveitando a luminosidade natural. Porém, hoje a família Mountbatten não aproveitaria o sol. Charlotte vestiu um conjunto preto, tomou café com a família calada, cada um perdido nos próprios pensamentos, e dirigiu-se para a lareira da sala de jantar, onde jogaram um pouco de pó de flu, pronunciando baixinho: Bromptom Road, 56. O funeral do tio Corny.
Corny não era um tio especialmente querido por ela, na verdade não podia lembrar a última vez que o tinha visto, mas seu pai estava realmente abatido com a situação, Aaron parecia incapaz de falar qualquer coisa sobre a morte do irmão. Era assustador vê-lo assim, alguém como ele, que estava sempre alegre, mesmo no funeral dos pais no ano anterior (lembrava-se dele rindo enquanto voltavam para casa).
As circunstâncias do que aconteceu ainda não eram claras para ela: sabia apenas o que o profeta divulgara e o que especulou pela forma como seu pai passou a agir desde aquele dia. Enquanto tia Penny fazia mais um de seus longos discursos desprovidos de criatividade, a garota da corvinal pode lembrar ainda as palavras exatamente como as vira no jornal da manhã de anteontem, “Trouxa assassinado” (uma manchete simplista para um caso considerado de pouca importância, merecendo o canto baixo de uma página quase no fim do jornal):
“Foi encontrado morto na noite passada o trouxa Corny Mountbatten, irmão de Aaron Mountbatten, dono da loja de produtos para quadribol Broombatten. Os aurores admitem que a causa da morte foi um feitiço, mas não chegaram a conclusões mais exatas.”
Enquanto Samuel completa suas exclamações eufóricas sobre o caráter infalível do irmão (nada verdadeiras), Aaron começa a se levantar. Charlotte encolhe-se para que ele possa passar e segura sua mão por alguns instantes, apenas o suficiente para que ele sentisse alguma presença ao seu redor, estava frio.
Ele começa seu discurso contando a infância que passou com seus irmãos, como a família se afastou, como foi mudando ao longo dos anos em que jamais se falavam. Finalmente, lembra de como recebera uma ligação de Corny, como esse lhe pedira para que o visitasse, dizendo que estava com problemas. Pela primeira vez desde o início da cerimônia, todos parecem prestar atenção.
Conta como o irmão o convidou para jantar com ele e sua esposa, dizendo que o filho deles já estava dormindo, como pediu dinheiro, como estava prestes a ceder quando ouviram a campainha.
Corny foi ver quem era, seguiu-se um longo silêncio até que ele e a cunhada resolvem ir ver se está tudo bem. Aaron vai primeiro e encontra o irmão já morto, sem qualquer sinal de ataque.
Após contar a história como se fosse uma notícia qualquer que ouviu no rádio durante o almoço e não algo que se passara com ele há poucos dias, volta ao seu lugar, onde permanece calado até o fim do funeral.
Charlotte não vê mudança alguma no humor do pai naquele dia, que andava como não mais que uma sombra pela casa.
No dia seguinte, assim como durante todo o resto do verão, Aaron acorda completamente entusiasmado, com seu jeito vivo de sempre. Pode-se dizer que a questão morte do irmão desapareceu de pauta na mente dele, mas não na da filha, menos ainda com essa estranha mudança.
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sexta-feira, 27 de março de 2009
RessacaAquela noite já se estendia mais do que ele gostaria. Bethany não parava de falar e Dolores se juntara a eles depois de quarenta minutos (assim que chegou disse algo ao ouvido de Bethany, causando nela um sorriso de satisfação; não deixou dúvidas: atrasou-se fazendo algo a pedido da outra, e teve sucesso). Como sempre, a gordinha ria de tudo o que a garota popular dizia – na verdade, talvez ela achasse o papel de parede engraçado - e fazia todas as suas vontades, Erikler às vezes se perguntava se ela era abobada só por personalidade ou se realmente tinha algum problema, mas não suportava olhar para ela tempo o suficiente para confirmar qualquer resposta.
Foram finalmente para a mesa de jantar, Erikler senta-se entre seu pai (que ocupava a cabeceira) e sua mãe. À direita dessa está Bethany, ladeada por Claire. Do lado esquerdo de Terence está a senhora Stengard, ficando logo em frente ao garoto, que observa com o canto do olho o senhor Malfoy sentar-se ao lado dela e logo em seguida Lucius. O amigo parecia tão impaciente quanto ele.
Os garçons servem os pratos e copos com a dignidade esperada de tal banquete e ele come em silêncio. As duas personagens sombrias à sua frente conversavam com seu pai em voz baixa, e por mais que prestasse atenção, Erikler pegava apenas algumas palavras na conversa, que anotava mentalmente com muito cuidado. “será difícil” “Lorde” “melhor” “tolo”.
Para quem observava, os três pareciam estar tendo uma conversa perfeitamente amigável, sorriam e moviam as mãos graciosamente, entretanto, Erikler sentia que os ânimos começavam a alterar-se entre eles, falavam cada vez mais rápido sem jamais mudar o volume, deixando o jovem confuso. “não vai” “as ordens” “sabe?”.
Após um último sussurro de Malfoy que parece impossível que o próprio Terence tenha ouvido (mas que pela sua expressão ele ouviu e muito bem), o pai de Erikler torna-se completamente branco e, dizendo aos próximos:
- Perdoem, acho que vou me retirar.
Levanta-se. Em seguida, acontece aquilo que Erikler nunca imaginou que veria: uma mulher confrontando diretamente seu pai, nunca vira nem mesmo a mãe ter tal coragem. A senhora Stengard levantara-se também e, tão rápido que por pouco ele acompanha seus movimentos, segura o pulso direito de Terence, impedindo-o de sair.
- Ele não é você Sakai.
Por alguns instantes, quando o pai agarra a mão da mulher, livrando o próprio braço com uma expressão de ódio profundo, Erikler tem a impressão de que ele esmagaria os ossos dela até virarem pó (provavelmente, ela pensa a mesma coisa, pois por seus olhos passa uma sombra de dor e medo e ela tenta livrar-se do aperto forte do homem), mas ele apenas afasta a mão dela, que cai mole ao lado do corpo. O Sr. Malfoy observa tudo impassivamente, traído em sua preocupação apenas por uma ruga no centro da testa.
Erikler não sabe se deve ou não seguir o pai. Parece que nenhum dos outros convidados percebeu o ocorrido, todos continuavam comendo tranqüilamente e os garçons não pararam de servir nem um único instante. Ele não tem a menor idéia do que fazer até que Mary encosta levemente em seu joelho; volta a atenção para ela.
- Siga-o.
A voz dela não era doce como normalmente quando se tratava do filho, mas imperiosa. Ele levanta-se quase automaticamente, fazendo um sinal para Bethany – que assim que o viu de pé preparou-se para ir também – de que ficasse.
O garoto tinha a impressão de que essa noite todos estavam escondendo algo dele. “Ele não é você Sakai”, aquela frase continuava a repetir-se em sua mente, não tinha dúvidas de que era a si que se referiam.
Enquanto segue o pai, percebe pelo canto do olho que mais alguém saía da mesa, era Lucius. Como sua mãe não faz nenhum movimento para impedi-lo, entende que ele deve ir também. Então isso tinha mesmo a ver com aquilo que ele o entregaria? O objeto que o Lorde quer que ele guarde era o centro daquela discussão? Por que justamente ele, que nunca sequer vira o Lorde pessoalmente, seria o protetor de algo tão importante e, pelo visto, perigoso?
Passando a mesma porta que o pai seguira, pode vê-lo entrar à esquerda ao final do longo corredor. Difícil lembrar que quarto era aquele... O casarão tinha mais de cem quartos que Erikler desconhecia, alguns por que estavam sempre trancados; outros por que ele nunca chegou a passar pelo corredor em que se localizavam; outros ainda, por que simplesmente não tinha interesse em ficar abrindo todas as portas da mansão a não ser que esperasse encontrar algo que valesse a pena. Agora, esse quarto parecia valer a pena.
Abre a porta apenas para entrar em uma saleta completamente vazia, o lugar não tinha qualquer tipo de objeto, móvel ou decoração, nem mesmo uma janela. Da saleta saía um corredor estreitíssimo, tanto que se não fosse pelo fato de a única fonte de luz da sala (um lumos deixado flutuando no ar pelo pai) estar posicionada bem em frente à entrada ele talvez não a tivesse percebido.
Assim que o filho fecha a porta, Terence surge na saleta, trazendo um objeto em mãos, que obviamente fora buscar no corredor estreito. Ele aproxima-se do outro, ao mesmo tempo em que Lucius entra também e fecha cuidadosamente a porta atrás de si; Erikler se assusta e afasta-se um pouco para poder enxergar os dois ao mesmo tempo, esperando alguma reação. Mesmo vindo de pessoas em quem ele confiava, a situação parecia sombria.
Terence está agora de costas para a luz, e abre lentamente o embrulho que tinha em mãos, deixa cair no chão um pedaço pequeno de seda fina, revelando uma caixinha em formato retangular; Lucius tira do bolso uma chave e abre a caixinha, revelando um livro pequeno e fino de capa dura preta, que entrega a Erikler.
- Bom, você já sabe, é só esconder. Ele não quer que ninguém veja isso ainda, então nada de falar pra mamãe ou pra namorada.
Lucius abre um sorriso que chega a parecer infantil e aproxima-se para falar ao outro sem que o pai desse ouça.- Um conselho de amigo, não abra o livro, às vezes não dá pra confiar nem em nós mesmos.
---- OFF POST ----
Primeiramente, agradecer o Expresso Hogwarts por ter nos anunciado :) E pedir desculpa pelas demoras nas postagens, mas bem, nós somos 3 vestibulandas e uma universitária, o tempo anda escasso por aqui. Mas o blog não está de jeito nenhum abandonado, e mesmo sem ter dia fixo para postagens, nós trocamos diversos e-mails sobre ele durante a semana.
E também para deixar um presente de nós para nós mesmos de páscoa!
Muitos chocolates pra todo mundo,
Liv Veland. ;)
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quinta-feira, 12 de março de 2009
Festa
Mais uma vez a mansão Sakai dava uma daquelas festas. Não, festa definitivamente não era a melhor maneira de se referir àquilo, ao menos não de acordo com Erikler. O certo seria “reuniões irritantes em que se deve ficar sempre em pé conversando sobre chatices e sorrindo, lembrar do nome de todo mundo e agir como se fossem especiais” (felizmente, desde que esquecera a Sra Flinch, o rapaz ganhou uma listinha, mas claro que ninguém podia vê-lo consultá-la); a definição de Terence já seria “mostrar a eles o quanto estamos honrados com suas presenças”, mas claro que o filho do milionário não se sentia nem um pouco honrado em ter em casa aquele bando de urubus.
Enquanto Erikler recebia polidamente cada um dos convivas que ia chegando, lembrava de como fora convencido a estar ali.
Na maioria dessas reuniões, que aconteciam mais ou menos duas vezes por semana, Erikler dava um jeito de ir para a casa de algum amigo ou da namorada. Ontem, porém, quando o pai anunciou durante o café da manhã que Erikler estaria presente à noite mesmo que sob a forma de um cadáver, a postura de Terence não era a sua usual: por alguma razão o movimento tenso das mãos do pai combinado com uma expressão ainda mais séria que o comum para ele (é incrível, mas aconteceu) deixaram claro que a ameaça seria cumprida, tão claro que mesmo Mary, que sempre intercedia em favor do filho, permaneceu em silêncio até que esse concordasse em fazer parte daquela palhaçada.
Afinal, o que essa noite poderia ter de tão especial?
Parecia que todos já haviam entrado, Erikler procura a figura do pai em meio àquela multidão na vasta sala de estar: encontra-o no canto oeste conversando com uma mulher estranha de cabelos negros presos em um coque. Consulta a lista por um instante: Lorrehein Stengard. Não lembrava de tê-la cumprimentado. Bom, não lembrava de três quartos das pessoas que cumprimentara hoje.
Distraído, mal percebe um senhor loiro passar e olhá-lo de cima a baixo com uma dessas caras de nojo que somente os velhos sabem fazer quando olham para aquilo que já perderam e querem sentir que ainda podem fingir alguma superioridade.
Atrás dele, entra um jovem de uns dois anos mais que Erikler, obviamente filho do senhor carrancudo, que o acorda de seus pensamentos tocando-o no ombro. Saltando para o lado e virando-se, percebe que a mão era de um amigo e pela primeira vez naquele dia sorri genuinamente.
- Lucius, o que você ta fazendo aqui? Espera um pouco.
Faz um sinal para um garoto próximo, o moleque que levava os casacos.
- Ei, cuide aqui pra mim um pouco. É só sorrir e não abrir a boca que ninguém vai notar.
Com um sinal para que o amigo o seguisse, atravessa o salão em direção ao jardim japonês que Terence mantinha nos fundos da casa, procurando não passar pelo campo de visão do pai. No caminho, pega um drink (não tem certeza do que é, apenas que é colorido e borbulhante e tem uma fatia de laranja na borda do copo) de uma bandeja que passava em direção a duas garotas: ele é o dono da festa, elas podem esperar.
Jardim é uma forma bem humilde de chamá-lo, o que o pai de Erikler mantinha no terreno da mansão era do tamanho de uma verdadeira floresta, porém completamente planejada para ter todos os tipos de belezas “naturais” que se pudesse imaginar. Os dois passam por um rio que corria em direção a uma miniqueda d’água sobre pedras preciosas observando entediados os peixes raros e se dirigem a um pequeno abrigo mais adiante, o mesmo em que o pai recebia os parentes japoneses para uma cerimônia do chá no estilo mais tradicional.
Como os parentes não apareceriam por um tempo, Mary havia colocado ali um banco de madeira artesanal. Erikler senta-se da forma mais esparramada possível, grato por não estar mais de pé (ficara assim por pelo menos quatro horas já), toma um gole do drink apenas para descobrir que era extremamente ácido e deixá-lo em um cantinho; Lucius fica em pé à sua frente, com as mãos no bolso, observando o colega falar.
- Então, alguma novidade? Isso aqui tá muito chato... O papai tá cada vez mais esquisito, tá agindo como se estivesse com o pé na cova e eu devesse “administrar a fortuna da família”. Fala sério! Eu não tenho obrigação nenhuma com isso aqui.
Lucius ria da indignação do amigo, mas assim que esse ficou em silêncio, assume uma postura séria.
- Eu não vim aqui para brincar Erikler. Ele tem uma missão para você. Parece que é importante, se fizer tudo direito, talvez ele te aceite entre a gente.
Erikler arruma-se no banco, aproximando o rosto para prestar atenção, não perderia essa oportunidade por nada.
- Bom, a primeira parte é simples, ele quer que você guarde uma coisa. Vou te entregar hoje de noite, o seu pai disse que podíamos ficar aqui até amanhã. O resto das instruções vai ser passado quando ele achar necessário.
Erikler ergue uma sobrancelha, aquilo parecia simplesmente fácil demais.
- Então... É só isso? Guardar uma coisa? E eu to dentro?
- A primeira parte é fácil, não se anime muito. Bom, o importante é não deixar ninguém saber que você está com isso e, se alguém descobrir, cortar o mal pela raiz.
Erikler sabia exatamente o que ele queria dizer, mas simplesmente afastara a idéia da mente, desde que não deixasse ninguém encontrar o que quer que fossem dar para ele, não teria que se preocupar com isso.
Quando Lucius volta sua atenção para a festa, o mais novo o acompanha e logo percebe o que chamara sua atenção: duas garotas que podiam ser descritas somente de uma forma – perfeitas - faziam sinal para que os rapazes fossem até elas. Afrodite definitivamente sorrira para Narcissa e Bethany ao construir seus corpos de beleza irrepreensível.
- Melhor deixar esse assunto para depois, vamos ter tempo.
- Claro.
Ambos sorriem com um olhar cúmplice enquanto se dirigem para as respectivas namoradas. Enroscando a mão na cintura fina, Erikler ainda pode ver o pai conversando com a mesma velha, mas agora o Senhor Malfoy havia se juntado a eles. Isso com certeza não era um bom sinal.
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segunda-feira, 2 de março de 2009
Inconveniências - Final
Os longos cabelos castanhos mal encostavam as costas da garota e ela já virava de lado novamente para olhar-se no espelho em outro ângulo. O vestido novo que ganhara da tia era um tanto esquisito, parecia fofo demais na região do busto e nas mangas estilo princesa, enquanto um grosso laço o apertava na barriga e caia baixo até altura do joelho, ainda que tivesse tecido de sobra para fazer um vestido rodado. Era de um tom verde-escuro, enquanto a faixa em sua barriga era um marrom, da cor de um tronco de carvalho.
Ainda que curioso, era um belo vestido; Olivie só não entendia porque tinha que vestir-se dessa forma para jantar na própria casa. Calçou as velhas sapatilhas marrons esperando que a tia não fosse implicar com o fato de estarem um tanto gastas, e aproximou-se do espelho do maquiador, apoiando as mãos sobre o móvel e inclinando-se para frente para examinar seu próprio rosto. Suas olheiras, como de costume, estavam em seu rosto, um pouco mais fundas desde a noite passada; recebera aquela carta estranha de seu pai na tarde anterior, evento que não a deixara fechar os olhos a noite inteira e nem a deixou prestar atenção ao material que comprara naquela tarde com Ivan. Cedo ou tarde, precisaria falar com sua tia sobre o assunto, ainda que não a tivesse em grande apreço.
Duas batidas fracas na porta a fizeram desviar a atenção de seus próprios olhos. Uma coisa que a sonserina aprendera a identificar era os diferentes modos como cada ser em sua casa batia na sua porta (para entender o nível de ócio da garota enquanto não se encontrava no ano letivo); sua tia tinha uma mão ossuda e pequena como a sua, entretanto sua batida era forte e rápida. Seu primo, costumava dar três batidinhas leves, que sempre vinham acompanhadas de seu nome sendo chamado. Já os elfos domésticos, parecia se tratar de uma batida forte – ou melhor, esforçada – embora fosse abafada e pouco ruidosa. No caso, era a batida de um dos elfos que acabara de ouvir.
- Avise a minha tinha que já estou descendo. – Ela respondeu às batidas em voz alta, para que a criaturinha atrás da porta pudesse ouvir. Esperou ouvir os passos leves se afastarem da porta para só então descer as escadarias para a sala de jantar.
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O jantar havia sido silencioso e agonizante para a sonserina. Ela batia os dedos impaciente na mesa enquanto os elfos traziam o chá, precisava falar com a tia e logo.
- Irei a uma festa na casa dos Sakai hoje, Olivie. – A tia falou por fim, uma das poucas frases que dissera desde que a garota havia chegado ao aposento. – Gostaria que me acompanhasse, sim? Aproveite que já está vestida.
Olivie deixou o queixo cair; um evento na casa de Erikler, sendo sua tia uma convidada. Começou a gaguejar, não queria ir de jeito nenhum. Nada contra os Sakai, mas tinha assuntos mais importantes para focar-se no momento... Só que para esses assuntos serem esclarecidos, precisava da tia em casa (Além do que, estava suficientemente espantada com o fato de a tia conhecer a família de seu amigo e colega de casa).
Ao lado da jovem Veland, dois olhos negros a olhavam de canto, com as mãos entrelaçadas na frente do rosto. Ivan parecia pensativo, mas ainda que não soubesse nada a respeito do que preocupava a sonserina, sabia que existia algo que a preocupava, e isso era suficiente. Quaisquer que fossem suas razões, ela não gostaria de ir, e ele a ajudaria com isso.
- Na verdade, mãe, Liv ficou de me ajudar a catalogar alguns exemplares novos. – Ivan começou, mais seguro na própria mentira do que Olivie jamais havia visto. - Aquela série daquela escritora irlandesa que anda fazendo sucesso.
Lorrehein o encarou com os dois olhos bem abertos, ainda que fosse sua mãe, era difícil até mesmo para ela dizer quando o ex-corvinal mentia; era sua arte, aliada ao entendimento de História da Magia.
- Muito bem, então. Mandarem lembranças de vocês dois. – Ela disse por fim, enquanto colocava o guardanapo sobre a mesa. – Alguém especial que quer que eu cumprimente... Olivie?
- Mande lembranças ao Erikler, é suficiente. – Ela respondeu sem encarar corvinos olhos da mulher, enquanto bebia um gole do seu chá.
Logo a tia se recolheu aos seus aposentos sem dizer uma palavra, e agora estavam somente Ivan e Olivie na sala, à exceção de uma elfa que limpava a mesa.
- Muito obrigada, mais uma vez. - Ela respondeu com um suspiro, enquanto se levantava. – Estou lhe devendo uma série de favores.
- Eu vou saber cobrar na hora certa. – O primo respondeu com um sorriso. – Você parece cansada, foi uma longa tarde. Por que não vai dormir mais cedo?
- Eu vou sim, só preciso dar uma palavrinha com sua mãe um instante. – Olivie, ao contrário do primo, era péssima mentirosa, e seu nervosismo estava tão visível para Ivan quanto os olhos azulados que ele via a sua frente. Após um tempo, em que ele encarava ela, esperando que dissesse algo mais, a moça retirou-se com um simples “com licença”, enquanto mexia ansiosa em uma mecha de cabelo. Subiu apressadamente os degraus sem dar muita importância à impressão que causaria aos elfos que passavam pelo local.
Ao chegar à porta da tia, no final do mesmo corredor onde ficava seu quarto, respirou fundo antes de dar duas batidas calmas na madeira (acaso avaliasse sua própria batida, teria somente uma palavra para ela: apavorada). Adentrou logo em seguida, deparando-se com a tia sentada defronte ao seu maquiador, enquanto colocava algumas jóias para o evento.
- Sim, Olivie?
A garota desencorajou ao ouvir a voz da tia, mas entendeu que seu desconforto perto dela era somente um capricho perto da situação a que deveria tratar. Precisaria ser forte, ao menos naquele momento. Tirou a carta que ocultara debaixo da faixa do vestido durante o jantar.
- Recebi essa carta ontem à tarde. É de seu irmão. – Ela fez questão de frisar.
Lorrehein olhou-a curiosa, apertando os olhos em uma expressão que Olivie não saberia interpretar. – Então, o que dizia a carta? Leia-a para mim, querida.
A morena ainda estava um pouco receosa, mas manteve seu olhar firme nos olhos da tia, juntos à expressão indolente. Desdobrando o papel da carta, começou com a voz mais estável que conseguiu.
- “Olivie, ainda que não saiba meu paradeiro, tenha certeza que estou em um lugar muito mais seguro do que a sua própria Hogwarts; estou finalmente colocando em prática alguns anos de estudo sobre você sabe o quê. Nos falaremos em breve, mandarei alguém para entrar em contato com você quando chegar a hora. S. V.”
Lorrehein sorriu discretamente. – Então, qual o problema, Olivie? – Ela perguntou com um tom de puro cinismo.
Olivie não sabia onde estava seu pai, mas essa carta a fizera ter uma idéia de com quem estaria. Pela banalidade do cotidiano da tia, duvidava que ela estivesse envolvida com aquilo, mas ainda assim precisava se mostrar sem opiniões a respeito do assunto... Antes prevenir do que remediar, afinal.
- Só quero saber se andou se correspondendo com meu pai, tia Lorrehein. Digo, eu não mandei nenhuma carta a ele informando onde eu estava, e nem poderia, pois eu mesma não saberia endereçar à coruja. – Ela sorriu brevemente, um sorriso tão falso quanto o que a mulher a havia lançado minutos antes. – Só para ter certeza, não é? Pelo que os jornais andam dizendo, são tempos perigosos.
A mulher pausou um minuto, parecia surpresa com a sagacidade da garota, e ao mesmo tempo desconfiada de sua reação.
- Creio ter mencionado, talvez, que pegaria sua guarda, quando fui visitá-lo em Kerker. – Ela respondeu, por fim. – Era só isso, querida?
- Só, tia Lorrehein. Boa noite. – E virando os calcanhares, saiu do aposento fechando a porta atrás de si.
Lorrehein ficou um tempo pensativa, olhando fixamente para a porta no espelho, enquanto alisava o rosto. Decidiu responder à carta, já que a sobrinha não o fizera; puxou um pergaminho e tirou a pena do tinteiro, começando a rabiscar uma caligrafia fina. Ao dobrar a manga para que não borrasse o papel, era possível notar uma espécie de tatuagem em seu braço, que poucos entenderiam o significado.
Aquela marca se tornaria tão inconveniente para Olivie quanto sua própria astúcia se tornaria para Lorrehein.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Inconveniências - Pt. 1
Era simplesmente estranho passear por uma zona trouxa que não fosse Londres. Jamais em momento algum havia passado pela cabeça da sonserina que os costumes trouxas mudassem tão abruptamente de acordo com sua região.Geralmente, durante sua estadia na Bélgica, Olivie não costumava sair muito de casa, e digamos que Waster não é lá uma zona muito atrativa; nunca em toda a sua vida imaginara como seu próprio país podia ser bonito. O clima estava temperadamente quente, mas uma brisa suave acalmava qualquer gota de suor que ousasse se formar na testa da sonserina, e o céu possuía um tom de azul que jamais havia visto em lugar algum no mundo. Um tom especial, único, parecia ser o céu exclusivo de Hasselt, que só os que passassem por lá teriam a chance de conhecer tamanha magnitude da natureza; até mesmo as nuvens, embora poucas, tinham um formato próprio naquele céu, era algo incrível.
Alguma coisa ela havia gostado por lá, ao menos. Sua nova casa pessoalmente fazia-a sentir como um pássaro enjaulado. O controle que Lorrehein exigia sobre ela angustiava Olivie, quase não a deixando respirar. Outrora, quando morava com seu pai, acostumou-se a fazer tudo sozinha na hora em que bem entendesse, pois se não fizesse, ninguém o faria por ela. E não se pode caçar um pássaro que já conheceu a liberdade para vê-lo feliz aprisionado em uma gaiola, Lorrehein deveria saber disso. Quando começou a se achar cansada da longa caminhada a procura da livraria de Ivan, a encontrou bem na sua frente. Distrair-se em pensamentos durante caminhadas cansativas sempre fora uma tática eficiente para Olivie. Ela deu uma boa olhadela por fora: Sem dúvida era a livraria de seu primo, havia uma placa de madeira que denunciava o nome “Livraria Veland” acima. Era bem pequena, com uma vitrine com diversos livros bruxos famosos a serem exibidos. Olivie estranhou aquilo, perguntaria a Ivan quando tivesse oportunidade. Foi quando sentiu um leve baque colidir com suas pernas. Olhou para baixo e viu um garoto de macacão, cerca de seis ou sete anos, que pelo visto tentara impedir sua bola de acertar a sonserina.
- Desculpa, moça. – Ele pôs-se de pé, pronto para virar-se e continuar a brincar. Olivie tocou de leve o ombro dele para que esperasse um instante. Quando o garoto parou e virou-se para ela novamente, ainda com a mão no seu ombro, ficando de cócoras para assumir uma altura similar à da criança, ela apontou para a livraria. – Você consegue ver isso?
- Ele estranhou a pergunta, olhando curioso para Olivie, mas ela simplesmente não se importou. Era só uma criança, de qualquer forma.
- É claro que consigo. – Ele começou ainda olhando a sonserina como se ela fosse maluca – É só uma casa abandonada, moça. Não tem nada aí.
E então, ele se afastou. Olivie não pode deixar de sorrir um sorriso discreto. Que truque inteligente; em momento algum subestimara Ivan, de fato. A sonserina levantou-se, e aproximou-se do vidro para ver se havia alguém lá dentro. Apesar do ambiente estar iluminado, o local parecia simplesmente vazio; checou a porta e ao perceber que a mesma estava destrancada, adentrou o local. Ligeiramente mal-arrumado, mas sem duvida em organização impecável. Os olhos azuis de Veland brilhavam de satisfação; aquele local, seu dúvida, tinha seu toque de fascínio. Estantes repletas de livros interessantíssimos a serem lidos, somente com o fato de não ter dinheiro impedindo-os de adentrar em suas tediosas férias de verão.
- Veio pelos livros? – Uma voz nos fundos da loja perguntou em tom casual e brincalhão. Saindo das sombras das prateleiras, um rapaz moreno de olhos negros sorria enquanto se aproximava com as mãos no bolso. Sua aparência, diferentemente da de
Olivie, era de um típico Veland. Robusto, alto, mas com o rosto triangular, e o negro absoluto nos olhos e cabelos. Olivie, por sua vez, ainda que mais alta que a maioria das garotas, era muito magra, e seus olhos definitivamente não eram olhos de um Veland; seus cabelos castanhos pertenciam a sua avó materna, e as íris azuis eram herança de sua mãe, Vendelle Öysten. A falecida bruxa possuía vários traços em comum com a filha, embora seu corpo fosse mais contornado e seus cabelos louros marfim. Seus sorrisos eram praticamente idênticos, assim como a expressão de Olivie quando se sentia irritada era igualzinha à dela. A sonserina sentia muito orgulho disso.
Ela sorriu o sorriso de Vendelle, mas seus olhos escondiam aquele “quê” melancólico, que não pertencia a mais ninguém senão Olivie. – Não... Eu vim por você. – Largando sua bolsa em cima da mesa, ela virou-se para encarar o primo, com seu costumeiro olhar desamocionado. – Para falar a verdade, vim lhe pedir um favor.
O garoto sentiu certa seriedade no assunto. Franziu as sobrancelhas enquanto encarava aquelas duas esferas azuladas a sua frente, como se elas pudessem lhe dizer do que se tratava aquela conversa. Por fim, baixou a cabeça, e suspirou, indicando para que a garota prosseguisse.
- Amanhã irei comprar meu material de Hogwarts em Londres. Sinceramente, preciso que você vá comigo.
A primeira impressão de Ivan foi confusa. Logo em seguida, um sorriso começou a se abrir em seu rosto, e ele entendeu do que se tratava. Não queria provocar a prima com o desconforto que a mesma sentia perto de sua mãe, entendia como a Sra. Veland podia ser superprotetora (ou neurótica, melhor dizendo). Talvez não fosse só isso, mas a partir daí já se trata de um assunto para ser revelado conforme Olivie se sentir à vontade para contar.
- Sem problemas, eu vou com você. – Ele disse por fim, e ela entendeu que esse assunto não estaria finalizado ali. Ele olhou para a estante, e tirando a mão do bolso, puxou um volume do alto dela, entitulado “Magia e Tradição – Uma análise patológica”. – Você devia ler esse. – E estendeu o livro à sonserina. – É um presente. – Ele complementou antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
A garota aceitou o livro, sorrindo timidamente em agradecimento. Puxou a bolsa para guardá-lo.- Parece que já está lendo algo. – Disse Ivan, olhando para o livro que havia dentro da bolsa da garota.- Ah, isso? É só um diário velho, nada demais. Bem, acho que eu vou indo, são quase seis horas. Obrigada e... Até o jantar.
Ele acenou, e ela saiu da loja. Ele a observou se afastar, abanando para um garotinho trouxa enquanto caminhava de volta para a mansão Veland.
Olivie, por sua vez, estava aliviada. Passar um dia longe da tia seria rejuvenescedor, de fato. Estava distraída, mal viu uma coruja passar voando sobre sua cabeça, e só notou a carta que caíra a seus pés ao pisar nela.
- Mas o quê... – Ela não conseguiu terminar a frase. O envelope tinha seu nome escrito, e ela reconhecia aquela letra mais até do que a sua própria. Seus olhos se arregalaram, e um arrepio percorreu seu pescoço. Aquela carta, qualquer que fosse seu conteúdo, não traria boas notícias.
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